O novo nascimento de Zico: duas fotos, 45 dias e um comentário, 'Estou magrinho!'

 Por Pedro Henrique Torre/ESPN.com.br

 

Assim que Zico retirou a bandeira que cobria a sua estátua, um rapaz com uma camisa rubro-negra, praticamente anônimo em meio à multidão em frente à Gávea, sorriu. Estava orgulhoso. Era o fim de um processo de quase 50 dias. Escultor da obra de arte tão aguardada, Edu Santos saiu da sua Piracicaba, no interior de São Paulo, para participar da festa no Rio de Janeiro. Com a ajuda de suas mãos, Zico nasceu mais uma vez, 60 anos depois. Diante dos elogios endereçados à estátua, o artista de 31 anos sorria com timidez. Ironicamente, nunca havia encontrado o ídolo que esculpira em bronze.Nascido em 81, ano emblemático para a geração do Galinho devido às conquistas da Libertadores e do Mundial, Edu mal acreditou quando recebeu um presente. Ali mesmo, na Gávea, minutos antes de a obra ser revelada ao mundo, o Galinho apareceu com uma camisa autografada nas mãos e lhe entregou. Um filme passou pela sua cabeça. 

 

 

CONFIRA A GALERIA DE FOTOS DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA ESTÁTUA DE ZICO

 

 

A cobertura na cabeça da estátua de Zico, ainda no ateliê

Logo no início do ano, a nova diretoria, já empossada, buscava uma empresa para tornar realidade a homenagem ao maior ídolo do clube. Em Piracicaba, o telefone tocou na empresa Fundiart, considerada uma das melhores do ramo na América do Sul. Eram representantes rubro-negros que desejavam a estátua de um atleta, em tamanho real. Trabalho designado a um dos talentos da casa, o escultor Edu Santos. Tão logo soube que a sua missão era fazer a estátua de Zico, Edu tomou um susto. Por alguns minutos, não acreditou que o destino lhe sorria com uma obra de repercussão mundial. 

 

"Na hora fiquei surpreso. Sempre admirei Zico como pessoa e jogador. Um sonho se realizou", disse Edu Santos, em meio à festa da Gávea. 

 

O problema era o prazo. Acostumado a trabalhos denominados como "figurativos hiper-realísticos", que levam cerca de 120 dias para a finalização, Edu soube que teria menos da metade disso: a estátua de Zico precisava estar pronta para o fim de semana do aniversário do ex-jogador, em 3 de março. Escolheu então pela opção de uma estátua "figurativa moderna", sem detalhamento tão aguçado, também por conta da baixa qualidade das fotos, da década de 80. O Galinho enviara sua sugestão: a comemoração de um gol de falta contra o Botafogo, em 1989, um empate em 3 a 3 no Maracanã. Na oportunidade, ele comemorou o golaço com uma explosão de alegria, braços e boca abertos. O registro, porém, abrangia apenas a parte superior do ídolo. Faltava o restante do corpo. Outra imagem, utilizada no site oficial do Flamengo, chegou às mãos de Edu. E ele pôs, literalmente, a mão na massa. 

 

 

A estátua pronta para a fundição em bronze

 

"Fiz um modelo, uma miniatura, onde explorei o movimento que eles queriam até chegar num consenso. Até a equipe de marketing falar: 'É isso que a gente quer!'. Após essa etapa, eu comecei a criar o modelo em argila, modelando em um processo manual e observando as fotos. Recebi bastante material do Zico. Na época de uma das fotos, de 1985, ele tinha 1,72m e 72 quilos. Através disso consegui medir o volume do corpo que ele tinha, de massa corporal para produzir a estátua", explicou Edu Santos. 

 

De longe, Zico era informado sobre o andamento da obra. Imagens eram enviadas e o Galinho, atento, acompanhava e dava sugestões. No Flamengo, o vice-presidente de comunicação, Gustavo Oliveira, e o gerente de marketing, Fred Mourão, tocavam os ajustes da festa e da inauguração da homenagem. Após a troca de e-mails, enfim, o dia do consenso chegara. O monumento havia sido aprovado e Zico até brincou ao observar como seria eternizado dentro da Gávea. 

 

"Mandei as fotos e enviaram para o Zico. Ele escreveu: 'Gostei, que bom que estou magrinho!'. Daí foi a maior alegria e demos sequência no processo de fundição", lembrou Edu Santos. 

 

Processo este que levou 25 dias. No total, foram necessários 45 dias para a estátua ficar pronta: 18 de criação, dois dias para providenciar os materiais necessários para a construção e os 25 restantes para a fundição em bronze. O trabalho em equipe foi considerado recorde por Edu. Aos poucos, a quarta estátua que o Galinho receberia estava bem próxima do debute. Com ácidos, Edu atacou o bronze e trabalhou em algumas sombras para dar destaque na camisa 10 com o nome do jogador na obra.

 

No dia 25 de fevereiro, a última segunda-feira, Edu finalmente finalizou a estátua. Três dias depois, ela, com peso de 100 quilos sem a base, desembarcava na Gávea, em esquema de total sigilo. O preço, aliás, também é mantido em segredo. Edu garante que o montante não foi especial, cobrado de acordo com os valores de mercado. De acordo com a diretoria do Flamengo, a obra foi financiada por colaboradores que preferiram permanecer anônimos. O trabalho valeu a pena. Logo após inaugurar a estátua, Zico se derreteu em elogios à obra e ao artista. 

 

 

Edu Santos, escultor da estátua de Zico, em frente à sua obra

 

"Está aprovada. Vocês (imprensa) tentaram, tentaram, mas ninguém conseguiu descobrir nada. Quem fez, da onde vinha. Montaram um aparato de guerra aqui (risos). Obrigado ao Eduardo por conseguir transformar em realidade sem fazer tanto esforço. No Kashima eu fiquei duas horas parado, sem beber água, ir ao banheiro, nada. Eles tiraram foto de tudo quanto é lado. Aqui eles só precisaram de uma foto, nem tive de ir lá. Brasileiro é muito competente", afirmou o Galinho. 

 

No salão nobre do clube, aos cantos de parabéns, Zico tentava soprar as velas do bolo diante de tantos abraços, beijos e pedidos de fotos e autógrafos. Novamente anônimo, Edu sorriu de longe e desceu as escadarias da Gávea. Ao passar pelo portão principal, parou para posar para fotos com sua obra ao fundo. Caminhando lentamente com a noiva, deixou a sede andando calmamente, sem olhar para trás. Hora de voltar para Piracicaba. Criador e criatura separaram-se em definitivo. Zico havia nascido novamente.  

 

Fonte: ESPN.com.br